Saturday, December 20, 2014

Ó, doce néctar da Ciência, verta!

     Aperro neste recinto, como bem gosto de fazê-lo. Encaro cada olhar, firmes e hesitantes. Algures um impaciente espectador atira-me vitupérios desconcertantes. Respiro, avanço. O drama é sempre bem-vindo, justamente porque existem aqueles que o combatem tanto. Sejais dramáticos, ao menos, ao combaterdes. O número que desenvolverei é, ao meu ver, exíguo em duração, então não vos perturbarei por muito tempo. Chego ao meio do pseudo palco o qual monto aqui, esse picadeiro sonso, e dou um grito.
     Mas esse grito, que por fim aliviar-me-á, terá como objetivo desincumbir-me do imenso entrave enleado em minhas entranhas. Não sei em que medida se insere esse momento de explanação, oxalá fosse seguro dizer que deslancho meus escritos neste espaço acolhedor com um momento de furiosa articulação. O tão-esperado-momento! Depois de quase um ano de morbidez e empoeiramento os escritos de um Gobblin são divulgados a minha pequena e amada comunidade!
     Não sinto fortaleza em nenhuma dessas palavras, ao mesmo tempo que as repito mentalmente, cultivo-as, anelo por sua concretização, e cuido que, a cada palavra, esse anseio torna-se mais concreto. Porém, se existe,  no momento, coisa na qual possa depositar firmeza essa é o cientista que me habita.
     É por causa dele que principiei esta corrente de pensamentos, portanto, nada mais justo do que vos contextualizar ao mesmo tempo que aponto os novos desafios de Arthur. Encontrei uma vereda tempestuosa, não obstante recompensadora em momentos apoteóticos de seu trajeto, e - mais excitante ainda - o meu e tão-único-jeito de responder ao mundo, de viver e de sentir prazerrr.


O prurido de um mundo pobdre

     Por todos os lados sou açulado, torturado. Será que meu ser tornou-se insuportavelmente sensível? Isso seria sobremaneira falacioso, pois se padeço ao entrar em contato com diversas ressumações do ódio não o faço ao ignorar muito sofrimento, vivido pelos marginalizados e pelos tratados como lixo. Um sofrimento perpétuo de tão silencioso, pois não há alguém que o escute, que o mitigue. Um sofrimento que é tão certo quanto a miséria na vida de bilhões em nosso planeta.
     Pois se então, acicatado diariamente, existem momentos em que meu próprio cotidiano entorna em virtude de tamanha interferência, hei de concluir que existem agravantes terríveis, responsáveis por extremas doses de angúústiaa.... Certamente posso corroborar que a gigantesca incógnita que amiúde se forma em minha mente, engendrada pelo comportamento doutros, tal como alguns melindres da alma - antros da imaturidade e do egocentrismo - são os dois principais afiançadores de meus martírios. Explicarei cada um brevemente.
     De modo primeiro e seguindo a ordem que estabeleci, tratarei de minha ânsia por explicar alguns comportamentos pré-escolhidos. Porfio em fazê-lo, e nesse afã angariei alguma singulares conquistas, em sua maioria consideradas inúteis por outrem, mas nunca por mim. Serei menos evasivo e inespecífico, mas por hora não revelarei quais comportamentos são esses.
     O importante para esse texto é que, desprovido do método científico, logro apenas de minha observação e do conhecimento que consigo obter por meio de ensaios e outras pesquisas pelas quais procuro com frequência. É importante dizer que uma epifania sem igual, relacionada a uma de minhas observações - que se deu por meses e em várias ocasiões - tem seu peso na escrita deste texto, tal como o período composto pela (aparente) incoerência de dados e pelas manifestações a mim ignotas.
     Tenho que reconhecer o quanto um experto cientista rir-se-ia da minha aflição. Ele bem sabe como a Ciência exige a paciência como virtude máxima. A isso não nego. Mas, se me afligi ao longo de minhas cogitações, sofri como para embeber de máximo garbo os meus minúsculos avanços. E justifico-me, de certa forma, ao dizer que parte dessa atribulação deu-se pois o assunto encerra mais esferas do que a científica, como a pessoal.
     Um futuro que não satisfaça minhas inúmeras dúvidas é um porvir que me causa despeito e revolta. Enquanto trilho meu caminho para prevenir tal sina, padeço pelas reviravoltas e inconstâncias de tão intrincados seres humanos!
     Passemos ao próximo tópico. 
     É algo natural, inalienável ao homem, o egoísmo. A única via de observação do mundo e o espectador são um único ente. Disso decorrem alguns fatores tristes, um deles é a não inerência do altruísmo. Em seu livro "O Gene Egoísta", do qual retirei muitas influências, Richard Dawkins aponta que o egoísmo é um comportamento inato enquanto o altruísmo PODE ser ensinado (isso de forma mais geral). Tive de parafraseá-lo sem pormenores para manter o turgor de minha escrita.
     Essa constatação se relaciona com o meu primeiro agravante do espírito no que tange a incapacidade de externar-me da própria alma e, em meio a tragédias humanas incomensuravelmente perversas, dentre apregoações claras do ódio e incompreensões pelas quais padecem tão pueris e maltratados jovens, são os meus arrufos os mais frequentes catalisadores de minhas tribulações.
     Dou agora um sorriso taciturno para o reflexo na tela do notebook. Essa consciência é duplamente motivadora de minha amargura. Não só porque considero tais aflições como irrisórias ante outras muito piores  e sei, sei como esse discurso nos é conhecido e aceito, mas também porque é justamente assim que se configura a manutenção de muita desigualdade. De agora em diante não sei se tudo será tão óbvio e ordinário (rs).
     O ser é curioso. Imaginem as milhões de pessoas que agora sofrem por seus próprios affairs em detrimento de maiores males que assolam a humanidade. Quantos se preocupam com problemas de fato gravíssimos como doenças e tragédias, mas ainda mais quantas remoem sobre matérias frívolas?
O espírito se preenche facilmente com os mais variados caprichos sob o véu da ignorância, uma nescidade não de conhecimento, de ciência, mas de mundo, da própria realidade.    
      Ora meus amigos! realmente crestes que escreveria sobre algo tão traiçoeiro? Desculpei-me, mas as aleivosias que me interessam não serão tratadas pelo discurso autoritário, o que vinha assumindo até aqui nos dois parágrafos anteriores. Não por causa disso, acossam-me menos essa noções.
      Foram tempos de embates socioeconômicos os últimos. Vislumbrados pelos olhos de um jovem interiorano que enfiou a fuça em eventos de modo algum destinados à estirpe desprovida de elevado poder aquisitivo. Primeiramente, é forçoso deixar claro que aspecto disso tudo realmente me afetou. Não é impressentido que a primeira interpretação do abalo perpetrado em meu ser seja a de que assim se sucedeu devido ao meu infortúnio material e a minha incapacidade de geri-lo, ou seja de acatar minha posição de reles átomo no ponto de vista financeiro. Não! Não me ojerizo por ser privado de muito - inclusive dentro de algo que eu prezo tanto, que é poder saciar a sede de saber - mas sim porque ao entrar em contato com alguns poucos que hão de posicionar-se muito acima dos muitos miseráveis - que, reconheço, são bem mais felizes sem terem de fato noção do que são os outros - vi que os primeiros pouco ou de nada sabem a respeitos das verdadeiras urgências deste mundo. Não só fui abalado por um contínuo descortinar de progresso mas também percebi que a manutenção de tanta discrepância já vem assegurada na próxima geração. Essa, caro leitor, foi a abordagem não autoritária.
     Diferentemente de várias outras experiências que geri no Senso Incomun e no meu outro blog, Graphophobia, este texto é a costura de no mínimo três momentos distintos de meu ser, todos vividos num período de aproximadamente três semanas. Empreendimento inédito para mim, pois minhas produções mais felizes - não no sentido usual do termo - ocorreram de maneira abrupta e extraíram daquelas conjunturas o pontual néctar.
     Não deixei, conquanto, de concentrar aqui, também um momento de perturbação, fruto desse odioso prurido.
     O prurido provocado por um mundo podre, onde aqueles que acima estão sustentados por bilhões de barrigas inchadas e deliberações castradas, os abastados não só de dinheiro, mas de cultura e conhecimento e que sequer cogitam verdadeira mudança. Por lá se mantêm, sepultando pelo tempo que conseguirem os escrúpulos que poderiam dar fim a este sistema.
     O prurido provocado por um mundo pobre que, mais do que a massa gigantesca e burra é uma infinidade de experiências, de histórias, de resiliência e amor, dois grandes relevos entre os sulcos da miséria e da violência...
     O mundo, o mundo. E eu?.....
     Reconheço. Para mim o Arthur Gobbi fala mais alto que a humanidade, mas é bom lembrar-vos que essa não brada em uníssono, pois se assim o fizesse, certamente teria minha atenção. Risos. Se assim o fizesse, teria também a minha voz.
   



     
A fria réplica do alienista

          Confesso que não me distancio do domínio das suposições ao construir meu próximo raciocínio, porém consigo ver claros os fundamentos desta fala. Augustos dos Anjos, um escritor entabulado entre os pré-modernistas revela uma visão muito curiosa do ser humano, com um pessimismo e cientificismo: 

Eu, filho do carbono e do amoníaco
Monstro de escuridão e rutilância
Sofro, desde a epigênese da infância
A influência má dos signos do zodíaco

     Ora, o autoconhecimento é providência temporária. É como uma psicanálise ante as explicações bioquímicas do cérebro. Vejo como ainda deslizamos entre um acerto e outro e a jornada compõe-se exatamente da tenacidade e da persistência de perscrutar incessantemente o cérebro, os comportamentos em sua explicação mais devida; a evolutiva.
     Um grande cientista brasileiro chamado Timor Iaria uma vez proferiu:
     "Tudo no universo é Física. Tudo. Toda ciência encarada seriamente acaba na Física".
     Aí reside minha paixão. Em transformar os fenômenos legados aos intérpretes dos sonhos em assuntos de responsabilidade física. Os grandes cientistas há muito atestam a linguagem na qual este universo foi escrito, basta fluência para que finalmente se possa ler nas entrelinhas.
     E, dentro daqueles inúmeros fatos conflitantes, que observo em meu dia-a-dia numa gama de comportamentos, poder, aos poucos, traçar sua origem, seu desenvolvimento. Esquecemo-nos de que erguemos cidades há menos de dez mil anos. Hoje uma criança; num piscar de olhos um adolescente arrogante, que levanta de sua cama acolchoada todo dia de semana, come uma comida altamente energética e livre de bactérias nocivas, entra num veículo (roubei essa divertida descrição) fabricado em grande parte de aço, que funciona explodindo restos de animais que viveram há milhões de anos, através de uma faísca e utilizando a propulsão de pistões para movimentar-se e chega numa escola, onde passa algumas horas sentado memorizando várias informações, interagindo com semelhantes do mesmo sexo e de sexos diferentes, seguindo um código social, tendo de controlar seu corpo caso tenha algum impulso fisiológico e que nos pequenos intervalos ingere doses gigantescas de energia - evolutivamente falando - para depois voltar à mesma posição e chegar em casa irritado com sua mãe porque está emocionalmente instável.
     E, após seu estágio na instituição escola - da sua maturação para o mercado - terá de comer comidas altamente energéticas (haja sódio) e livre de bactérias nocivas, de entrar num outro veículo fabricado em grande parte de aço, que funciona explodindo restos de animais que viveram há milhões de anos, através de uma faísca e utilizando a propulsão de pistões para se movimentar, enfim, terá de realizar uma série de tarefas muito estranhas a sua condição ancestral. Porém, seu corpo é praticamente idêntico ao seu antepassado de dez mil anos atrás. O desenvolvimento da linguagem foi, de fato, decisivo e impôs mudanças radicais ao intelecto humano, mas, em questões evolutivas, as últimas transformações, que segundo alguns coroam-nos como especiais ou distintos do restante dos animais, são extremamente recentes, do ponto de vista biológico; inofensivas. 
     Porquanto defendo que, quanto mais investirmos na psicologia evolutiva, mais saberemos a nosso próprio respeito. Um autoconhecimento nunca dantes visto! pois é da carne e, por isso, tão humano.

     O alienista, incansável, não desistirá caso não seja ouvido nesse primeiro adágio de sua jornada. A ciência não tem filhos preferidos, nem faz juízo daqueles que a praticam, é por tanto que meu alienista recolher-se-á. Nunca adormecido, sempre à espreita e pronto, caso se faça necessário, para subjugar-se à dor de uma assombrosa conclusão.
     Pois o que se deve entender - e a poucos isto é suficiente - é que a Ciência alimenta seus bastardos com migalhas e os encarcera em seu enlevo da eterna perscrutação.
     Escraviza-nos e nos rendemos dóceis a seus grilhões. Pois, como ciente de minha entrega, sei que cometo alguns pecados. Peco porque não existem Supremos em nosso universo, mas vejo-me na completa incapacidade de não endeusar essa vocação humana, à maneira de muitos religiosos e outras espécies de fanáticos.



















     Cogito eu que Os Escritos de um Gobblin assomam  em impecável timing. Com o florescer de minha paixão científica, atestado da maturidade desse sentimento de regozijo ante a Ciência; com a derradeira experiência vestibularesca e toda a angústia e privações que ela pode trazer consigo; com o anúncio, também, de que uma nova era se alevanta e, no brevíssimo interstício de vestibulando a discente da USP, quero desenterrar muitos gobblins pelo caminho.
     Sejam esses os meus pensamentos tortuosos ou belos, que ainda pretendo redigir; sejam o imenso acervo cultural que acumulei durante o ano e que me aguarda; sejam as personagens do próximo Dungeons and Dragons que irei jogar.
     Felis aniversário (no calendário juliano), Newton - err, digo - felis natau a todos!