Monday, February 19, 2018

Murar o Medo - Mia Couto

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.
Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.
Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.
Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.
Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.
Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.
O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.
A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.
Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.
Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.
Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.
Essa arma chama-se fome.
Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi -- ou será -- vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.
Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Sunday, October 18, 2015

Primeiro giro da roda viva

    Enfim encontrei pequena brecha para examinar ou provavelmente apenas digerir um pouco do muito que nos últimos tempos me foi confiado assimilar.
Sinto-me envergonhado por não ter registrado minhas reflexões com a arte das palavras, toda essa experiência configurada pelo meu ingresso na faculdade rendeu-me mais ideias, indignações, dúvidas e anseios que todo um ano de ensino médio. Também observo que minha leitura decaiu sensivelmente desde que tive de adequar-me a uma roda viva que, inexorável, engole a tudo e a todos e recebe como oferenda sem par a resignação taciturna de espíritos opacos.
     Obviamente esse vácuo literário, acrescido a minha inadimplência para com os tributos de um deus tão exigente e melindroso quanto o da escrita, há de manifestar-se na diluição do vocabulário e na timidez em estilo. Ainda assim farei o possível para confeccionar algo digno do trabalho do vosso músculo ocular.
     Esse monólogo diferir-se-á daqueles textos que costumo redigir no que tange a abordagem e exposição dos pensamentos. De praxe, lanço mão de uma contextualização assaz vaga e nebulosa. Justamente porque penso que, apesar de serem o berçário das ideias que transmito em meus blogs, as conjunturas envolvendo-as são inconvenientemente pontuais, de um caráter pessoal e até mesmo narrativo, o que me desagrada.
     Também acho interessante pontuar que essa escrita pode desnudar-me (o que espero que seja motivo de felicidades para alguns; perdoa a pilhéria). Seriamente, cogito estar inserindo-me progressivamente em uma fase na qual minha postura "pública" ganha uma análise diferente, supérflua e criteriosamente vazia, o que pode abrir ou fechar portas. Fato que me preocupa no momento, em virtude da minha atual conjuntura, porém não a ponto de tolher meu ímpeto de usar das palavras para fazer uma das atividades mais nobres neste mundo.
É hora de principiar.

As cidades
     Particularmente sou mais atraído por São Paulo. Sou convencido de que o fluxo ouro-finense de capitais, pessoas e informações é mais acentuado para com a capital paulista do que para com a mineira - uma desforra da modernidade a favor dos bandeirantes. Também possuo mais amigos e família por lá do que em Belo Horizonte.
Evidentemente ambas cumprem a função de "cidade grande" e, para os propósitos deste texto, isso é tudo que importa.
     A comparação que deveras me interessa é a de BH e Ouro Fino, minha doce cidade natal. Creio que não disponho de tempo e careço de boa vontade para fazer um pareamento criterioso e sóbrio (observação perigosa de se fazer haja vista que um dos subtítulos pressupõe justamente um desenvolvimento maior da confrontação das duas experiências, ainda que uma delas não possua sequer um semestre de vivência). Mas, os contrastes ainda pulsantes em meu bisonho encéfalo, eu aqui desejo cravar.
     E o que vos primeiro assoma, construído das palavras que minha mente ousou processar:
     O sinal vermelho, quando reina no semáforo, é o estímulo mais imperioso para minha imaginação. Sou obrigado a lobrigar através das vidraças e viajar...
     As pessoas andando na rua são tão insignificantes...Estou vivo! Sentindo e respirando. As pessoas andando na rua são tão significantes para si mesmas...
     Paraliso-me por alguns segundos e tento sensibilizar-me quanto a experiência de estar consciente e recebendo estímulos sensoriais por toda parte. Sim, estou vivo e esse foi mais um momento em que borbulha uma torrente melancólica por dentro, em que a nitidez da vida me assusta. Aterroriza por sua vicissitude inexorável...   
     Algumas cenas atraem magneticamente o meu olhar; as pessoas que passam suas noites e dias sobrevivendo das ruas. Uma pergunta então me acossa: "Será que me acostumarei com essa cena com o passar do tempo?"...
     A réplica desse questionamento foge a mim como os pedestres que caminham no sentido oposto. Cuido que uma resposta afirmativa é copiosamente capciosa e, em semelhança à negativa, nunca será de todo verdadeira. Mas se de fato essa vir a preponderar me resguardarei nalguma teoria social...
       Ao cruzar com os enormes edifícios, que temem o zepelim da pobreza sempre a pairar, lembro-me dos pensamentos, confusões e despeito que se inflaram em meu peito após uma experiência em São Paulo. (Caso o prurido da curiosidade se manifeste, basta rolar abaixo pois discorro em parte do meu primeiro texto sobre uma das primeiras impressões causadas pela discrepância das cidades).
     E tão arrebatador de minha atenção quanto seu antagônico, o banho verde me clama à realidade. Mas que realidade é essa senão uma recém apresentada a mim? E, talvez, por isso tão estranha e intragável. Nada que a absência da construção do conhecimento, das possibilidades exíguas do fazer científico em minha quase bucólica cidade não possam encobrir e embotar; hei de seguir em frente. Push forward.
      
     Ainda sobre esse choque, fiquei muito contente em entrar em contato um artigo de George Simmel há alguns dias chamado "A metrópole e a vida mental" e poder nele discriminar algumas ideias muito interessantes e assaz pertinentes a esse subtexto. Contudo devo pontuar que os trechos aqui trazidos são constituintes da parca coleção de passagens as quais considerei satisfatórias levando-se em conta as diversas (e pérfidas) suposições fisiológicas utilizadas pelo autor para abordar a por ele chamada "vida mental".
     Assim se constrói o primeiro trecho: " A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos estímulos contrastantes que, em nítidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos nervos. Disto também  parece originalmente jorrar  a intensificação da intelectualidade metropolitana. Portanto, as pessoas estúpidas, que não têm existência intelectual, não são exatamente blasé. Uma vida em perseguição desregrada ao prazer torna uma pessoa blasé porque agita os nervos até seu ponto de mais forte reatividade por um tempo tão longo  que eles finalmente cessam completamente de reagir. Da mesma forma, através da rapidez e contraditoriedade de suas mudanças, im­pressões menos ofensivas forçam reações  tão  violentas, esti­rando os nervos tão brutalmente em uma e outra direção, que suas últimas reservas  são gastas; e, se a pessoa permanece no mesmo meio, eles não dispõem de tempo  para recuperar a força.  Surge assim a incapacidade  de reagir a novas sensa­ções com a energia apropriada. Isto  constitui aquela atitude blasé [...]".
     Cuido que após o excerto acima fica evidente meu desconforto quanto ao embasamento fisiológico do fenômeno abordado, contudo não é esse meu interesse e sim emprestar a ideia da atitude blasé para colocar uma sensação, uma quase que imposição que senti nessa mudança de lócus, nessa desambientação a mim impingida. Pode ser que a"sensação" não seja a parte mais importante, mas sim suas implicações; uma delas minha lancinante ausência nesta Arcádia.
     A distância das cidades que venço esporadicamente é senão o lembrete do recrudescimento da independência, a cúpula da adultez que se fecha numa comissura acima de minha cabeça, como a fontanela de um recém-nascido que lentamente é selada pelo crescimento dos ossos... 
     Ademais, cogito que talvez uma forma de abordar - mas não resolver - o questionamento que fiz sobre os moradores de rua é justamente por essa mudança de lócus, do interior para a cidade grande que é por si só complexa, confusa. Seus efeitos, finalmente são melhor retratados nas palavras de Simmel: "Se houvesse, em resposta aos contínuos contatos externos com inúmeras pessoas, tantas reações interiores quanto as da cidade pequena, onde se conhece quase todo mundo que se encontra e onde se tem uma relação positiva com quase todos, a pessoa ficaria completamente atomizada internamente e chegaria a um estado psíquico inimaginável."

O curso

     Uma das coisas mais difíceis a conceber-se é a dura constatação de uma vida, esse dom que é tão precioso, tão lindo e exuberante em amor - a máxima divina - desperdiçada em um ofício ou profissão que não corresponda à essência do ser. Creio que seja uma reflexão muito precoce e pérfida. Mas como hei de não a ter? Ademais creio que tais dúvidas e angústias perpassam a mente de todos nesse preâmbulo da vida universitária.
     Prossigo ao criticar uma postura adotada frente a esse questionamento por pessoas com quem conversei a respeito. Transigir, ou (corro grande perigo ao usar tais expressões) conformar-se com o status quo, como forma de escapar à dor e optar por uma opção mais confortável se me parecem extremamente válidas, contanto que não sejam uma forma de apartar-se da dúvida. É como faço agora, convivo com a dúvida, padeço da insegurança por ela ensejada mas não quero, ao longo do percurso, procurar a ignorância, a alienação e a desistência da autoanálise.
     É como Rosa Luxemburgo uma vez sentenciou: "Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem". É por isso que não posso deixar de desafiar, e permitir-me ao desafio. De todo modo, segue minha primeira análise.
     Fui tragado por uma máquina de fazer médicos chamada faculdade de medicina e, como todas instituições, ela é digna de minha desconfiança.
     O ato de criticar é ímpar. Lembro-me de quanto pontuei quais aspectos de minha querida escola me arreliavam e de como tais observações foram confundidas com uma espécie de ingratidão, aparente desagradecimento pela imensa contribuição daquela instituição a minha formação. Tive de retificar a impressão perpetrada, e já vos advirto, para que tal impacto não se reitere.
     O parágrafo anterior tece um resguardo em torno do autor, que não é necessário, principalmente porque reconheço que pouquíssimo sei sobre sobre o sistema de graduação da medicina. Não obstante posso apontar um aspecto ( e o faço com muito receio, em verdade, asilar-me-ei na minha inexperiência) que a mim assemelha-se a um processo não somente restrito à medicina que é a implacável mercantilização das forças humanas, principalmente de uma parcela que é tão necessária e que demanda gigantesco investimento intelectual, financeiro e temporal quanto a classe médica.
     Para lidar com essa aflitiva constatação lanço mão de meu fervor pelo conhecimento e qualquer resiliência que possa acastelar em corpo e mente, pois entrevejo que muito será de mim exigido. É uma conditio sine qua non para ir mais além e para ter chegado até aqui.
     É claro que omiti comentários sobre o que aprendi até então, mas asseguro que, caso o fizesse, aqui transpareceria uma visão muito mais otimista. Sempre a frente.

Reitera-se a réplica do alienista¹

      Entabulo este subtexto com um excerto² de um psicólogo mestre em neurociências, cujo blog me propiciou momentos de deleite.

     "A essência da guerra, segundo o austríaco Konrad Lorenz, bi-laureado com o prêmio Nobel, é o que este autor chama de “entusiasmo coletivamente agressivo”, um padrão comportamental disparado por situações sociais que ameaçam os valores do grupo, mobilizando forte ímpeto de defesa. Quais valores são defendidos depende do que é aprendido na cultura em questão. Podemos sentir a profundidade deste impulso humano na união em torno da defesa de um valor grupal mesmo em se tratando de algo abstrato e arbitrário, como torcer por um time de futebol. Quando uma nação se une contra um inimigo, forças psicológicas poderosas e muito antigas na evolução são mobilizadas de forma intensa; os sujeitos são tomados pela sensação subjetiva de elevação e jogam tudo para o alto para obedecer ao 'dever sagrado' (jihad, em árabe)."
       Fui introduzido em um novo habitat e tive de ali discriminar o ódio, homiziado nas diversas estirpes de indivíduos com os quais pude conviver. É bem sabido que longe estou de um delegado das minorias ou de eximido de ser um opressor, por definição o sou. Mas de maneira mais abrangente - que não diz respeito às opressões - mas a todas relações interpessoais; é preciso reconhecer a importância desse conhecimento psicológico e evolutivo para se empoderar da razão e entender grande parte da gênese de comportamentos que nos fadam desastres sociais, ambientais e - mais intensamente - pessoais.
          Dessa forma, findo o cerne do meu texto. Ao abordar todos esses aspectos de minha vida, como o curso e as cidades, desejava encontrar razões para crer que a intenção primal, meu escopo existencial, de melhorar a minha vida e a de outrem por meio da ciência e de um maior autoconhecimento, sendo este - como mencionei no texto que abre este blog - tanto puramente psicológico quanto psicoevolutivo ainda possuem vitalidade. E isso me alegra profundamente!


***



     Este é um tímido apêndice o qual pode até tornar-se algum texto digno, mas esperemos a proliferação bacteriana necessária para tanto, meu último desejo é extrair daqui uma dissertação precocemente. Ei-lo:

     Menti de certa forma ao dizer cabalmente que nada li nesses últimos tempos. Em verdade li um livro que me desconcertou.
     "Por um fio" do Dráuzio Varella, um belíssimo ser humano, traz relatos da vida clínica de um médico que procurou na oncologia a práxis do seu ofício. É emocionante a cada frase, característica que, ao tocar o meu ser em um estado fragilizado, engendrou uma série de transformações e um reforço na descrença num Deus pessoal ou em qualquer outra forma de conforto sobrenatural. Um trecho que me arrebatou logo que o li e é com ele que deixo meus escritos expirarem:
      "Imaginar a morte como um fardo prestes a desabar sobre nosso destino é insuportável. Conviver com a impressão de que ela nos espreita é tão angustiante que organizamos a rotina diária como se fôssemos imortais e, ainda, criamos teorias fantásticas para nos convencer de que a vida é eterna."

Saturday, December 20, 2014

Ó, doce néctar da Ciência, verta!

     Aperro neste recinto, como bem gosto de fazê-lo. Encaro cada olhar, firmes e hesitantes. Algures um impaciente espectador atira-me vitupérios desconcertantes. Respiro, avanço. O drama é sempre bem-vindo, justamente porque existem aqueles que o combatem tanto. Sejais dramáticos, ao menos, ao combaterdes. O número que desenvolverei é, ao meu ver, exíguo em duração, então não vos perturbarei por muito tempo. Chego ao meio do pseudo palco o qual monto aqui, esse picadeiro sonso, e dou um grito.
     Mas esse grito, que por fim aliviar-me-á, terá como objetivo desincumbir-me do imenso entrave enleado em minhas entranhas. Não sei em que medida se insere esse momento de explanação, oxalá fosse seguro dizer que deslancho meus escritos neste espaço acolhedor com um momento de furiosa articulação. O tão-esperado-momento! Depois de quase um ano de morbidez e empoeiramento os escritos de um Gobblin são divulgados a minha pequena e amada comunidade!
     Não sinto fortaleza em nenhuma dessas palavras, ao mesmo tempo que as repito mentalmente, cultivo-as, anelo por sua concretização, e cuido que, a cada palavra, esse anseio torna-se mais concreto. Porém, se existe,  no momento, coisa na qual possa depositar firmeza essa é o cientista que me habita.
     É por causa dele que principiei esta corrente de pensamentos, portanto, nada mais justo do que vos contextualizar ao mesmo tempo que aponto os novos desafios de Arthur. Encontrei uma vereda tempestuosa, não obstante recompensadora em momentos apoteóticos de seu trajeto, e - mais excitante ainda - o meu e tão-único-jeito de responder ao mundo, de viver e de sentir prazerrr.


O prurido de um mundo pobdre

     Por todos os lados sou açulado, torturado. Será que meu ser tornou-se insuportavelmente sensível? Isso seria sobremaneira falacioso, pois se padeço ao entrar em contato com diversas ressumações do ódio não o faço ao ignorar muito sofrimento, vivido pelos marginalizados e pelos tratados como lixo. Um sofrimento perpétuo de tão silencioso, pois não há alguém que o escute, que o mitigue. Um sofrimento que é tão certo quanto a miséria na vida de bilhões em nosso planeta.
     Pois se então, acicatado diariamente, existem momentos em que meu próprio cotidiano entorna em virtude de tamanha interferência, hei de concluir que existem agravantes terríveis, responsáveis por extremas doses de angúústiaa.... Certamente posso corroborar que a gigantesca incógnita que amiúde se forma em minha mente, engendrada pelo comportamento doutros, tal como alguns melindres da alma - antros da imaturidade e do egocentrismo - são os dois principais afiançadores de meus martírios. Explicarei cada um brevemente.
     De modo primeiro e seguindo a ordem que estabeleci, tratarei de minha ânsia por explicar alguns comportamentos pré-escolhidos. Porfio em fazê-lo, e nesse afã angariei alguma singulares conquistas, em sua maioria consideradas inúteis por outrem, mas nunca por mim. Serei menos evasivo e inespecífico, mas por hora não revelarei quais comportamentos são esses.
     O importante para esse texto é que, desprovido do método científico, logro apenas de minha observação e do conhecimento que consigo obter por meio de ensaios e outras pesquisas pelas quais procuro com frequência. É importante dizer que uma epifania sem igual, relacionada a uma de minhas observações - que se deu por meses e em várias ocasiões - tem seu peso na escrita deste texto, tal como o período composto pela (aparente) incoerência de dados e pelas manifestações a mim ignotas.
     Tenho que reconhecer o quanto um experto cientista rir-se-ia da minha aflição. Ele bem sabe como a Ciência exige a paciência como virtude máxima. A isso não nego. Mas, se me afligi ao longo de minhas cogitações, sofri como para embeber de máximo garbo os meus minúsculos avanços. E justifico-me, de certa forma, ao dizer que parte dessa atribulação deu-se pois o assunto encerra mais esferas do que a científica, como a pessoal.
     Um futuro que não satisfaça minhas inúmeras dúvidas é um porvir que me causa despeito e revolta. Enquanto trilho meu caminho para prevenir tal sina, padeço pelas reviravoltas e inconstâncias de tão intrincados seres humanos!
     Passemos ao próximo tópico. 
     É algo natural, inalienável ao homem, o egoísmo. A única via de observação do mundo e o espectador são um único ente. Disso decorrem alguns fatores tristes, um deles é a não inerência do altruísmo. Em seu livro "O Gene Egoísta", do qual retirei muitas influências, Richard Dawkins aponta que o egoísmo é um comportamento inato enquanto o altruísmo PODE ser ensinado (isso de forma mais geral). Tive de parafraseá-lo sem pormenores para manter o turgor de minha escrita.
     Essa constatação se relaciona com o meu primeiro agravante do espírito no que tange a incapacidade de externar-me da própria alma e, em meio a tragédias humanas incomensuravelmente perversas, dentre apregoações claras do ódio e incompreensões pelas quais padecem tão pueris e maltratados jovens, são os meus arrufos os mais frequentes catalisadores de minhas tribulações.
     Dou agora um sorriso taciturno para o reflexo na tela do notebook. Essa consciência é duplamente motivadora de minha amargura. Não só porque considero tais aflições como irrisórias ante outras muito piores  e sei, sei como esse discurso nos é conhecido e aceito, mas também porque é justamente assim que se configura a manutenção de muita desigualdade. De agora em diante não sei se tudo será tão óbvio e ordinário (rs).
     O ser é curioso. Imaginem as milhões de pessoas que agora sofrem por seus próprios affairs em detrimento de maiores males que assolam a humanidade. Quantos se preocupam com problemas de fato gravíssimos como doenças e tragédias, mas ainda mais quantas remoem sobre matérias frívolas?
O espírito se preenche facilmente com os mais variados caprichos sob o véu da ignorância, uma nescidade não de conhecimento, de ciência, mas de mundo, da própria realidade.    
      Ora meus amigos! realmente crestes que escreveria sobre algo tão traiçoeiro? Desculpei-me, mas as aleivosias que me interessam não serão tratadas pelo discurso autoritário, o que vinha assumindo até aqui nos dois parágrafos anteriores. Não por causa disso, acossam-me menos essa noções.
      Foram tempos de embates socioeconômicos os últimos. Vislumbrados pelos olhos de um jovem interiorano que enfiou a fuça em eventos de modo algum destinados à estirpe desprovida de elevado poder aquisitivo. Primeiramente, é forçoso deixar claro que aspecto disso tudo realmente me afetou. Não é impressentido que a primeira interpretação do abalo perpetrado em meu ser seja a de que assim se sucedeu devido ao meu infortúnio material e a minha incapacidade de geri-lo, ou seja de acatar minha posição de reles átomo no ponto de vista financeiro. Não! Não me ojerizo por ser privado de muito - inclusive dentro de algo que eu prezo tanto, que é poder saciar a sede de saber - mas sim porque ao entrar em contato com alguns poucos que hão de posicionar-se muito acima dos muitos miseráveis - que, reconheço, são bem mais felizes sem terem de fato noção do que são os outros - vi que os primeiros pouco ou de nada sabem a respeitos das verdadeiras urgências deste mundo. Não só fui abalado por um contínuo descortinar de progresso mas também percebi que a manutenção de tanta discrepância já vem assegurada na próxima geração. Essa, caro leitor, foi a abordagem não autoritária.
     Diferentemente de várias outras experiências que geri no Senso Incomun e no meu outro blog, Graphophobia, este texto é a costura de no mínimo três momentos distintos de meu ser, todos vividos num período de aproximadamente três semanas. Empreendimento inédito para mim, pois minhas produções mais felizes - não no sentido usual do termo - ocorreram de maneira abrupta e extraíram daquelas conjunturas o pontual néctar.
     Não deixei, conquanto, de concentrar aqui, também um momento de perturbação, fruto desse odioso prurido.
     O prurido provocado por um mundo podre, onde aqueles que acima estão sustentados por bilhões de barrigas inchadas e deliberações castradas, os abastados não só de dinheiro, mas de cultura e conhecimento e que sequer cogitam verdadeira mudança. Por lá se mantêm, sepultando pelo tempo que conseguirem os escrúpulos que poderiam dar fim a este sistema.
     O prurido provocado por um mundo pobre que, mais do que a massa gigantesca e burra é uma infinidade de experiências, de histórias, de resiliência e amor, dois grandes relevos entre os sulcos da miséria e da violência...
     O mundo, o mundo. E eu?.....
     Reconheço. Para mim o Arthur Gobbi fala mais alto que a humanidade, mas é bom lembrar-vos que essa não brada em uníssono, pois se assim o fizesse, certamente teria minha atenção. Risos. Se assim o fizesse, teria também a minha voz.
   



     
A fria réplica do alienista

          Confesso que não me distancio do domínio das suposições ao construir meu próximo raciocínio, porém consigo ver claros os fundamentos desta fala. Augustos dos Anjos, um escritor entabulado entre os pré-modernistas revela uma visão muito curiosa do ser humano, com um pessimismo e cientificismo: 

Eu, filho do carbono e do amoníaco
Monstro de escuridão e rutilância
Sofro, desde a epigênese da infância
A influência má dos signos do zodíaco

     Ora, o autoconhecimento é providência temporária. É como uma psicanálise ante as explicações bioquímicas do cérebro. Vejo como ainda deslizamos entre um acerto e outro e a jornada compõe-se exatamente da tenacidade e da persistência de perscrutar incessantemente o cérebro, os comportamentos em sua explicação mais devida; a evolutiva.
     Um grande cientista brasileiro chamado Timor Iaria uma vez proferiu:
     "Tudo no universo é Física. Tudo. Toda ciência encarada seriamente acaba na Física".
     Aí reside minha paixão. Em transformar os fenômenos legados aos intérpretes dos sonhos em assuntos de responsabilidade física. Os grandes cientistas há muito atestam a linguagem na qual este universo foi escrito, basta fluência para que finalmente se possa ler nas entrelinhas.
     E, dentro daqueles inúmeros fatos conflitantes, que observo em meu dia-a-dia numa gama de comportamentos, poder, aos poucos, traçar sua origem, seu desenvolvimento. Esquecemo-nos de que erguemos cidades há menos de dez mil anos. Hoje uma criança; num piscar de olhos um adolescente arrogante, que levanta de sua cama acolchoada todo dia de semana, come uma comida altamente energética e livre de bactérias nocivas, entra num veículo (roubei essa divertida descrição) fabricado em grande parte de aço, que funciona explodindo restos de animais que viveram há milhões de anos, através de uma faísca e utilizando a propulsão de pistões para movimentar-se e chega numa escola, onde passa algumas horas sentado memorizando várias informações, interagindo com semelhantes do mesmo sexo e de sexos diferentes, seguindo um código social, tendo de controlar seu corpo caso tenha algum impulso fisiológico e que nos pequenos intervalos ingere doses gigantescas de energia - evolutivamente falando - para depois voltar à mesma posição e chegar em casa irritado com sua mãe porque está emocionalmente instável.
     E, após seu estágio na instituição escola - da sua maturação para o mercado - terá de comer comidas altamente energéticas (haja sódio) e livre de bactérias nocivas, de entrar num outro veículo fabricado em grande parte de aço, que funciona explodindo restos de animais que viveram há milhões de anos, através de uma faísca e utilizando a propulsão de pistões para se movimentar, enfim, terá de realizar uma série de tarefas muito estranhas a sua condição ancestral. Porém, seu corpo é praticamente idêntico ao seu antepassado de dez mil anos atrás. O desenvolvimento da linguagem foi, de fato, decisivo e impôs mudanças radicais ao intelecto humano, mas, em questões evolutivas, as últimas transformações, que segundo alguns coroam-nos como especiais ou distintos do restante dos animais, são extremamente recentes, do ponto de vista biológico; inofensivas. 
     Porquanto defendo que, quanto mais investirmos na psicologia evolutiva, mais saberemos a nosso próprio respeito. Um autoconhecimento nunca dantes visto! pois é da carne e, por isso, tão humano.

     O alienista, incansável, não desistirá caso não seja ouvido nesse primeiro adágio de sua jornada. A ciência não tem filhos preferidos, nem faz juízo daqueles que a praticam, é por tanto que meu alienista recolher-se-á. Nunca adormecido, sempre à espreita e pronto, caso se faça necessário, para subjugar-se à dor de uma assombrosa conclusão.
     Pois o que se deve entender - e a poucos isto é suficiente - é que a Ciência alimenta seus bastardos com migalhas e os encarcera em seu enlevo da eterna perscrutação.
     Escraviza-nos e nos rendemos dóceis a seus grilhões. Pois, como ciente de minha entrega, sei que cometo alguns pecados. Peco porque não existem Supremos em nosso universo, mas vejo-me na completa incapacidade de não endeusar essa vocação humana, à maneira de muitos religiosos e outras espécies de fanáticos.



















     Cogito eu que Os Escritos de um Gobblin assomam  em impecável timing. Com o florescer de minha paixão científica, atestado da maturidade desse sentimento de regozijo ante a Ciência; com a derradeira experiência vestibularesca e toda a angústia e privações que ela pode trazer consigo; com o anúncio, também, de que uma nova era se alevanta e, no brevíssimo interstício de vestibulando a discente da USP, quero desenterrar muitos gobblins pelo caminho.
     Sejam esses os meus pensamentos tortuosos ou belos, que ainda pretendo redigir; sejam o imenso acervo cultural que acumulei durante o ano e que me aguarda; sejam as personagens do próximo Dungeons and Dragons que irei jogar.
     Felis aniversário (no calendário juliano), Newton - err, digo - felis natau a todos!