Enfim encontrei pequena brecha para examinar ou
provavelmente apenas digerir um pouco do muito que nos últimos tempos me foi
confiado assimilar.
Sinto-me envergonhado por não ter registrado minhas
reflexões com a arte das palavras, toda essa experiência configurada pelo meu
ingresso na faculdade rendeu-me mais ideias, indignações, dúvidas e anseios que
todo um ano de ensino médio. Também observo que minha leitura decaiu
sensivelmente desde que tive de adequar-me a uma roda viva que, inexorável,
engole a tudo e a todos e recebe como oferenda sem par a resignação taciturna
de espíritos opacos.
Obviamente esse
vácuo literário, acrescido a minha inadimplência para com os tributos de um
deus tão exigente e melindroso quanto o da escrita, há de manifestar-se na
diluição do vocabulário e na timidez em estilo. Ainda assim farei o possível
para confeccionar algo digno do trabalho do vosso músculo ocular.
Esse monólogo
diferir-se-á daqueles textos que costumo redigir no que tange a abordagem e
exposição dos pensamentos. De praxe, lanço mão de uma contextualização assaz
vaga e nebulosa. Justamente porque penso que, apesar de serem o berçário das
ideias que transmito em meus blogs, as conjunturas envolvendo-as são
inconvenientemente pontuais, de um caráter pessoal e até mesmo narrativo, o que
me desagrada.
Também acho
interessante pontuar que essa escrita pode desnudar-me (o que espero que seja
motivo de felicidades para alguns; perdoa a pilhéria). Seriamente, cogito estar
inserindo-me progressivamente em uma fase na qual minha postura
"pública" ganha uma análise diferente, supérflua e criteriosamente
vazia, o que pode abrir ou fechar portas. Fato que me preocupa no momento, em
virtude da minha atual conjuntura, porém não a ponto de tolher meu ímpeto de
usar das palavras para fazer uma das atividades mais nobres neste mundo.
É hora de principiar.
As cidades
Particularmente sou mais atraído por São Paulo. Sou
convencido de que o fluxo ouro-finense de capitais, pessoas e informações é mais
acentuado para com a capital paulista do que para com a mineira - uma desforra
da modernidade a favor dos bandeirantes. Também possuo mais amigos e família
por lá do que em Belo Horizonte.
Evidentemente ambas cumprem a função de "cidade
grande" e, para os propósitos deste texto, isso é tudo que importa.
A comparação que
deveras me interessa é a de BH e Ouro Fino, minha doce cidade natal. Creio que
não disponho de tempo e careço de boa vontade para fazer um pareamento
criterioso e sóbrio (observação perigosa de se fazer haja vista que um dos
subtítulos pressupõe justamente um desenvolvimento maior da confrontação das
duas experiências, ainda que uma delas não possua sequer um semestre de
vivência). Mas, os contrastes ainda pulsantes em meu bisonho encéfalo, eu aqui
desejo cravar.
E o que vos
primeiro assoma, construído das palavras que minha mente ousou processar:
O sinal vermelho,
quando reina no semáforo, é o estímulo mais imperioso para minha imaginação.
Sou obrigado a lobrigar através das vidraças e viajar...
As pessoas
andando na rua são tão insignificantes...Estou vivo! Sentindo e respirando. As
pessoas andando na rua são tão significantes para si mesmas...
Paraliso-me por
alguns segundos e tento sensibilizar-me quanto a experiência de estar
consciente e recebendo estímulos sensoriais por toda parte. Sim, estou vivo e
esse foi mais um momento em que borbulha uma torrente melancólica por dentro,
em que a nitidez da vida me assusta. Aterroriza por sua vicissitude
inexorável...
Algumas cenas
atraem magneticamente o meu olhar; as pessoas que passam suas noites e dias
sobrevivendo das ruas. Uma pergunta então me acossa: "Será que
me acostumarei com essa cena com o passar do tempo?"...
A réplica desse
questionamento foge a mim como os pedestres que caminham no sentido oposto. Cuido que uma resposta afirmativa é copiosamente capciosa e, em semelhança à negativa, nunca será de todo verdadeira. Mas
se de fato essa vir a preponderar me resguardarei nalguma teoria social...
Ao cruzar com os
enormes edifícios, que temem o zepelim da pobreza sempre a pairar, lembro-me
dos pensamentos, confusões e despeito que se inflaram em meu peito após uma
experiência em São Paulo. (Caso o prurido da curiosidade se manifeste, basta
rolar abaixo pois discorro em parte do meu primeiro texto sobre uma das
primeiras impressões causadas pela discrepância das cidades).
E tão arrebatador
de minha atenção quanto seu antagônico, o banho verde me clama à realidade. Mas
que realidade é essa senão uma recém apresentada a mim? E, talvez, por isso tão
estranha e intragável. Nada que a absência da construção do conhecimento, das
possibilidades exíguas do fazer científico em minha quase bucólica cidade não
possam encobrir e embotar; hei de seguir em frente. Push forward.
Ainda sobre esse
choque, fiquei muito contente em entrar em contato um artigo de George Simmel
há alguns dias chamado "A metrópole e a vida mental" e poder nele
discriminar algumas ideias muito interessantes e assaz pertinentes a esse
subtexto. Contudo devo pontuar que os trechos aqui
trazidos são constituintes da parca coleção de passagens as quais considerei
satisfatórias levando-se em conta as diversas (e pérfidas) suposições
fisiológicas utilizadas pelo autor para abordar a por ele chamada "vida
mental".
Assim se constrói
o primeiro trecho: " A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos
estímulos contrastantes que, em nítidas mudanças e compressão concentrada, são
impostos aos nervos. Disto também parece
originalmente jorrar a intensificação da
intelectualidade metropolitana. Portanto, as pessoas estúpidas, que não têm
existência intelectual, não são exatamente blasé. Uma vida em perseguição
desregrada ao prazer torna uma pessoa blasé porque agita os nervos até seu
ponto de mais forte reatividade por um tempo tão longo que eles finalmente cessam completamente de reagir.
Da mesma forma, através da rapidez e contraditoriedade de suas mudanças,
impressões menos ofensivas forçam reações
tão violentas, estirando os
nervos tão brutalmente em uma e outra direção, que suas últimas reservas são gastas; e, se a pessoa permanece no mesmo
meio, eles não dispõem de tempo para
recuperar a força. Surge assim a
incapacidade de reagir a novas
sensações com a energia apropriada. Isto
constitui aquela atitude blasé [...]".
Cuido que após o
excerto acima fica evidente meu desconforto quanto ao embasamento fisiológico
do fenômeno abordado, contudo não é esse meu interesse e sim emprestar a ideia
da atitude blasé para colocar uma sensação, uma quase que imposição que senti
nessa mudança de lócus, nessa desambientação a mim impingida. Pode ser que
a"sensação" não seja a parte mais importante, mas sim suas
implicações; uma delas minha lancinante ausência nesta Arcádia.
A distância das
cidades que venço esporadicamente é senão o lembrete do recrudescimento da independência, a cúpula da adultez que se fecha numa comissura acima de minha cabeça, como a fontanela de um recém-nascido que lentamente é selada pelo crescimento dos ossos...
Ademais, cogito que talvez uma forma de abordar - mas não resolver - o questionamento que fiz sobre os moradores de rua é justamente por essa mudança de lócus, do interior para a cidade grande que é por si só complexa, confusa. Seus efeitos, finalmente são melhor retratados nas palavras de Simmel: "Se houvesse, em resposta aos contínuos contatos externos com inúmeras pessoas, tantas reações interiores quanto as da cidade pequena, onde se conhece quase todo mundo que se encontra e onde se tem uma relação positiva com quase todos, a pessoa ficaria completamente atomizada internamente e chegaria a um estado psíquico inimaginável."
O curso
Uma das coisas
mais difíceis a conceber-se é a dura constatação de uma vida, esse dom que é tão
precioso, tão lindo e exuberante em amor - a máxima divina - desperdiçada em um
ofício ou profissão que não corresponda à essência do ser. Creio que seja uma
reflexão muito precoce e pérfida. Mas como hei de não a ter? Ademais creio que
tais dúvidas e angústias perpassam a mente de todos nesse preâmbulo da vida universitária.
Prossigo ao
criticar uma postura adotada frente a esse questionamento por pessoas com
quem conversei a respeito. Transigir, ou (corro grande perigo ao usar tais
expressões) conformar-se com o status quo, como forma de escapar à dor e optar
por uma opção mais confortável se me parecem extremamente válidas, contanto que
não sejam uma forma de apartar-se da dúvida. É como faço agora, convivo com a
dúvida, padeço da insegurança por ela ensejada mas não quero, ao longo do
percurso, procurar a ignorância, a alienação e a desistência da autoanálise.
É como Rosa
Luxemburgo uma vez sentenciou: "Quem não se movimenta não sente as
correntes que o prendem". É por isso que não posso deixar de desafiar, e
permitir-me ao desafio. De todo modo, segue minha primeira análise.
Fui tragado por
uma máquina de fazer médicos chamada faculdade de medicina e, como todas
instituições, ela é digna de minha desconfiança.
O ato de criticar
é ímpar. Lembro-me de quanto pontuei quais aspectos de minha querida escola me
arreliavam e de como tais observações foram confundidas com uma espécie de
ingratidão, aparente desagradecimento pela imensa contribuição daquela
instituição a minha formação. Tive de retificar a impressão perpetrada, e já
vos advirto, para que tal impacto não se reitere.
O parágrafo
anterior tece um resguardo em torno do autor, que não é necessário,
principalmente porque reconheço que pouquíssimo sei sobre sobre o sistema de
graduação da medicina. Não obstante posso apontar um aspecto ( e o faço com
muito receio, em verdade, asilar-me-ei na minha inexperiência) que a mim
assemelha-se a um processo não somente restrito à medicina que é a implacável
mercantilização das forças humanas, principalmente de uma parcela que é tão
necessária e que demanda gigantesco investimento intelectual, financeiro e
temporal quanto a classe médica.
Para lidar com
essa aflitiva constatação lanço mão de meu fervor pelo conhecimento e qualquer
resiliência que possa acastelar em corpo e mente, pois entrevejo que muito será
de mim exigido. É uma conditio sine qua non para ir mais além e para ter chegado até aqui.
É claro que omiti
comentários sobre o que aprendi até então, mas asseguro que, caso o fizesse,
aqui transpareceria uma visão muito mais otimista. Sempre a frente.
Reitera-se a réplica do alienista¹
Entabulo este
subtexto com um excerto² de um psicólogo mestre em neurociências, cujo blog
me propiciou momentos de deleite.
"A essência
da guerra, segundo o austríaco Konrad Lorenz, bi-laureado com o prêmio Nobel, é
o que este autor chama de “entusiasmo coletivamente agressivo”, um padrão
comportamental disparado por situações sociais que ameaçam os valores do grupo,
mobilizando forte ímpeto de defesa. Quais valores são defendidos depende do que
é aprendido na cultura em questão. Podemos sentir a profundidade deste impulso
humano na união em torno da defesa de um valor grupal mesmo em se tratando de
algo abstrato e arbitrário, como torcer por um time de futebol. Quando uma
nação se une contra um inimigo, forças psicológicas poderosas e muito antigas
na evolução são mobilizadas de forma intensa; os sujeitos são tomados pela
sensação subjetiva de elevação e jogam tudo para o alto para obedecer ao 'dever
sagrado' (jihad, em árabe)."
Fui introduzido
em um novo habitat e tive de ali discriminar o ódio, homiziado nas diversas
estirpes de indivíduos com os quais pude conviver. É bem sabido que longe estou
de um delegado das minorias ou de eximido de ser um opressor, por definição o
sou. Mas de maneira mais abrangente - que não diz respeito às opressões - mas a
todas relações interpessoais; é preciso reconhecer a importância desse
conhecimento psicológico e evolutivo para se empoderar da razão e entender
grande parte da gênese de comportamentos que nos fadam desastres sociais,
ambientais e - mais intensamente - pessoais.
Dessa forma,
findo o cerne do meu texto. Ao abordar todos esses aspectos de minha vida, como
o curso e as cidades, desejava encontrar razões para crer que a intenção
primal, meu escopo existencial, de melhorar a minha vida e a de outrem por meio
da ciência e de um maior autoconhecimento, sendo este - como mencionei no texto que abre
este blog - tanto puramente psicológico quanto psicoevolutivo ainda possuem vitalidade. E isso me alegra profundamente!
***
Este é um tímido
apêndice o qual pode até tornar-se algum texto digno, mas esperemos a
proliferação bacteriana necessária para tanto, meu último desejo é extrair
daqui uma dissertação precocemente. Ei-lo:
Menti de certa
forma ao dizer cabalmente que nada li nesses últimos tempos. Em verdade li um
livro que me desconcertou.
"Por um
fio" do Dráuzio Varella, um belíssimo ser humano, traz relatos da vida
clínica de um médico que procurou na oncologia a práxis do seu ofício. É
emocionante a cada frase, característica que, ao tocar o meu ser em um estado
fragilizado, engendrou uma série de transformações e um reforço na descrença
num Deus pessoal ou em qualquer outra forma de conforto sobrenatural. Um trecho
que me arrebatou logo que o li e é com ele que deixo meus escritos expirarem:
"Imaginar a
morte como um fardo prestes a desabar sobre nosso destino é insuportável.
Conviver com a impressão de que ela nos espreita é tão angustiante que organizamos
a rotina diária como se fôssemos imortais e, ainda, criamos teorias fantásticas
para nos convencer de que a vida é eterna."